domingo, 6 de julho de 2008

Jane Austen

1775 - Nasce em 16 de dezembro, no presbíterio de Steventon Parish, em Hampshire, Inglaterra.

1784 - É levada para uma escola em Oxford juntamente com a irmã Cassandra, sob os cuidados de uma preceptora.

1787 - Jane e a irmã voltam para casa.

1790/1793 - Nesse período escreve os primeiros romances, que comporiam a coletânea Juvenilia.

1795 - Conhece o irlandês Thomas Lefroy, por quem se apaixona.

1796 - Escreve à irmã uma carta relatando o rompimento com Lefroy.

1795/1798 - Nesse período escreve as versões originais de A Abadia de Northanger, Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito.

1801 - Muda-se com a família para Bath.

1805 - Morre George, seu pai. Começa a escrever The Watsons e Lady Susan, mas não conclui as obras.

1807 - As duas irmãs e a mãe mudam-se para Southampton e passam a residir com o irmão Frank e sua esposa.

1809 - Jane, a irmã e a mãe mudam-se para uma casa em Chawton, cedida pelo irmão Edward.

1811 - Publica Razão e Sensibilidade. Começa a escrever Mansfield Park.

1813 - Publica Orgulho e Preconceito. Sai a segunda edição de Razão e Sensibilidade.

1814 - Começa a escrever Emma. Publica Mansfield Park.

1815 - Começa a escrever Persuasão. Publica Emma.

1816 - Conclui Persuasão. Sai a segunda edição de Mansfield Park.

1817 - Começa a escrever Sanditon, mas adoece e vai para Winchester para se tratar. Fica paralítica e morre em 18 de julho, aos 41 anos.

A Europa do século XVIII passa por importantes mudanças políticas e econômicas. Os tratados de Utrecht (1713-1715-) encerram o período da preponderância francesa, que passa a ser britânica. O absolutismo triunfa até meados desse século em boa parte do continente, onde ocorrem diversos conflitos: a guerra da tríplice aliança, a guerra da sucessão da Áustria, a guerra dos sete anos e outros.

As rivalidades coloniais entre França e Inglaterra pesam muito nas relações entre esses países. Na Índia os britânicos suplantam definitivamente a influência francesa no decorrer da guerra dos sete anos.

A partir de 1760 tem início na Inglaterra a Revolução Industrial. A invenção da máquina a vapor é decisiva para a aceleração da série de transformações tecnológicas, econômicas e sociais que só depois de muitas décadas se estenderiam ao continente.

O impacto causado na Europa pela Revolução Francesa, em 1789, é tão profundo e marcante que a partir daí tem início outra época, tradicionalmente denominada Idade Contemporânea.

A segunda metade do século XVIII passa a ser denominada Século das Luzes, em virtude do predomínio gradual das idéias de tolerância religiosa e reforma política e social que asseguram maior liberdade individual.

É nesse período de ebulição política na Europa que nasce Jane Austen, em 16 de dezembro de 1775, no presbitério de Steventon Parish, em Hampshire, zona rural da Inglaterra, no reinado de Jorge III. Jane é a segunda filha e a penúltima dos oito filhos do reverendo George Austen e sua esposa Cassandra Leigh Austen, pertencentes a uma família tradicional e numerosa. Jane recebe em casa a maior parte de sua instrução. Tem uma infância feliz em meio aos irmãos e a outros garotos, que se hospedam na casa e dos quais o reverendo George é tutor. Amantes do romance e da poesia, para se divertir as crianças escrevem e inventam jogos e charadas, e mesmo sendo uma garotinha, Jane é incentivada a escrever. Desde cedo revela sua inclinação para as letras, ao escrever bilhetes para parentes e amigos em uma época em que escrever cartas é uma espécie de modismo. A leitura pelas crianças de livros da extensa biblioteca do reverendo George fornece material para que escrevam pequenas peças teatrais, que elas próprias representam.

Em 1784, quando seus pais decidem enviar Cassandra - a inseparável irmã mais velha, então com dez anos - para uma escola em Oxford, Jane implora para ser levada junto, no que é atendida. Elas ficam sob os cuidados de uma preceptora; contudo, sem recursos para manter as meninas estudando fora, o pai traz as filhas de volta para casa três anos depois. Jane nunca mais se separaria da família.

Em 1790, com catorze anos de idade, Jane escreve seu primeiro romance, Amor e Amizade, sob a forma epistolar - estilo que nuca seria inteiramente dominado pela escritora. Essa e outras obras escritas anonimamente na adolescência, além de uma coleção de cartas, comporiam os três volumes da coletânea Juvenilia.

A vida de Jane Austen até então não é marcada por grandes acontecimentos, nada ocorre que possa perturbar a sua pacata existência. Contudo, apesar da tão pouca vivência, do restrito convívio social e de morar sempre em pequenas cidades do interior da Inglaterra, a escritora possui uma visão extraordinariamente cosmopolita.

Transforma-se em uma notável cronista da sociedade inglesa da época, que, ao contrário do que se poderia supor, não é uma sociedade rural típica inglesa, estável, conservadora, e sim uma sociedade burguesa, um mundo fluido e arbitrário em que algumas famílias nadam em dinheiro novo, enquanto outras lutam para manter o pouco que possuem.

Com percepção aguda dos fatos e estilo pacífico, sereno e equilibrado, Jane consegue construir em seus romances uma descrição minunciosa do ambiente a que pertence com uma sutil ironia. Seus primeiros escritos contêm imagens anárquicas e de violência em abundância, e por ser filha de um eclesiástico do século XVIII, isso revela uma ousadia incomum.

O nome Lady Susan, escrito na adolescência, em 1792, é inspirado em As Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos, um livro que seria proibido para uma senhorita da pequena burguesia, educada nos rigores do puritanismo. É possível que os pais de Jane não lhe censurem as leituras, pois seu trabalho literário também recebe influência de Sir Charles Dickinson, escrito por Samuel Richardson, e de Tom Jones, de Henry Fielding, livros considerados igualmente escandalosos na época.

A criação aristocrática também aflora na temática dos romances de Jane Austen, sobretudo na caracterização psicológica de suas personagens femininas, verdadeiras heroínas burguesas, cuja preocupação máxima é conseguir um bom casamento. Sem dúvida a principal diferença entre Jane Austen e suas heroínas sensuais é que, no caso destas, não só suas percepções e critérios são importantes como também em geral têm a oportunidade de escolher o próprio destino

Ainda em 1792, Jane escreve Kitty ou o Caramanchão, e entre 1795 e 1798 Elinor e Marianne, romance epistolar que serviria de base para Razão e Sensibilidade, A Abadia de Northanger, que parodia os livros de terror, muitos populares à época, mas que só seria publicado postumamente, e Orgulho e Preconceito.

Em 1795, no final da adolescência, Jane se apaixona por um Irlandês encantador chamado Thomas Lefroy, mas o romance não se concretiza e termina no ano seguinte. Essa desilusão amorosa sem dúvida desencadeia em Jane os mesmos sentimentos de vulnerabilidade e de um relativo abandono que marcaram sua infância, quando a mãe a deixara juntamente com a irmã Cassandra Elizabeth aos cuidados de uma preceptora em Oxford.

Em 1801, aos 26 anos, muda-se com os pais e Cassandra, para Bath. Após a morte do irmão George, deficiente mental, do pai, em 1805, e da cunhada, que deixa órfãos os onze filhos de seu irmão Edward, ela passa por um período de depressão, durante o qual escreve muito pouco. Em março de 1807 Jane, Cassandra e a mãe mudam-se para Castle Square, Southampton. Passam a morar com seu irmão Frank, um capitão naval, e sua esposa

Em 1809 as três mulheres tranferem-se para uma pequena mas confortável casa cedida pelo próspero irmão Edward em Chawton, próximo a Winchester, no sul da Inglaterra. Jane retoma a atividade literária e começa a preparar a versão final de Razão e Sensibilidade e de Orgulho e Preconceito. Em 1811, então com 36 anos publica Razão e Sensibilidade e começa a escrever Mansfield Park, que seria publicado em 1814, ano em que começa a escrever Emma, obra dedicada ao príncipe regente, futuro George IV, e publicada no ano seguinte.

No início de 1817 Jane começa a escrever outro romance, Sanditon, mas poucos meses depois adoece, vitimada por uma complicação pulmonar, e vêr-se obrigada a ir para Winchester para se tratar. Porém, fica paralítica e morre em 18 de julho, aos 41 anos de idade. Cassandra está a seu lado. Uma semana depois é supultada na catedral da cidade, sem a presença da irmã já que nessa época mulheres não assistiam a funerais.

Além de A Abadia de Northanger, outras obras publicadas após sua morte são Persuasão e Lady Susan, com um prefácio biográfio escrito por Henry, seu irmão predileto. As obras The Watsons e Sanditon também são póstumas, mas são trabalhos não concluídos.

A linguagem pura e simples, o tom humorístico, sarcástico, a agudeza de espírito e os sempre atuais temas de amor e casamento garantem a imortal popularidade de Jane Austen, cujos romances são frequëntemente reproduzidos com sucesso nas telas de cinema.

Ao longo dos séculos, biógrafos e críticos têm se perguntado como a tímida e reservada filha de um clérigo protestante do interior da Inglaterra viria a produzir livros tão sofisticados, como uma mulher de temperamentos doce, morta aos 41 anos de idade, solteira e com pouco convívio social, se converteria em autora de romances tão irônicos e profundamente modernos que não se enquadram em nenhum dos padrões literários característicos de sua época.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Flaubert


1821 - Nasce Gustave Flaubert, em Ruão, Normandia, França, filho de Achille-Cléophas Flaubert e Justine Caroline Fleuriot.

1832 - Entra para o Colégio Real.

1836 - Conhece seu grande amor, Elisa Schlesinger, em Trouville.

1837-39 - Redige o drama Luís XI e as novelas Fantasia de Inferno, Paixão e Virtude e Memórias de um Louco.

1844 - Tem o primeiro ataque nervoso. Na primavera, o pai de Flaubert adquire a propriedade de Croisset.

1846 - Morrem o pai e a irmã do escritor. Flaubert instala-se em Croisset com a mãe e a sobrinha. Inicia romance com Louise Collet.

1848 - Revolução contra o rei Luís Filipe. Morre Alfred Le Poittevin. Inicia As Tentações de Santo Antônio.

1849 - Viagem ao Oriente.

1852 - Golpe de Estado em Paris: ascensão de Napoleão Bonaparte. Flaubert retorna a Croisset, inicia a escrita de Madame Bovary.

1856 - Madame Bovary começa a ser publicada na Revue de Paris. escreve Os Mercenários.

1857 - É aberto processo contra Flaubert. Absolvido, o escritor edita Madame Bovary com grande sucesso. Inicia o romance Salammbô.

1862 - Publica Salammbô.

1869 - Reescreve As Tentações de Santo Antônio. Publica A Educação Sentimental. Louis Bouillet morre em 18 de julho.

1870 - Caem Napoleão Bonaparte e a monarquia. Iniciada a guerra Franco-Prussiana.

1872 - Morre a mãe do escritor.

1876 - Inicia o romance Um Coração Simples. Morre Louise Collet. Inicia a Bouvard et Pécuchet.

1880 - Morre em 8 de maio, aos 58 anos.

Lá fora, o inverno. As flores do pátio morreram. As folhas dos plátanos foram ficando douradas e caíram. O pequeno rio gelado não é mais que um pequeno filete de vidro. Até mesmo a estátua de Corneille, sobre a ponte de pedra, está coberta de neve.

Ruão, 1821. O doutor Achille-Cléophas Flaubert não contempla a paisagem. Passa muitas vezes ante a janela embaçada. A sabedoria do médico-cirurgião se tornou inútil e a longa experiência profissional de nada lhe serve. Há horas que anda de um lado para o outro. De repente pára, apruma o ouvido, sorri: acaba de nascer seu segundo filho.

Os recém-nascidos são geralmente levados da maternidade para casa. Mas a casa de Gustave Flaubert é o próprio hospital, o hôtel-Dieu. Um lar sem dúvida pouco propício para desabrochar do mundo alegre e puro de uma criança. Recompensa-o, no entanto, ouvir histórias de fadas e relatos fantásticos ou brincar com os irmãos, Chille e Caroline.

Aos dez anos vai estudar no renomado Colégio Real. Gustave é uma criança distraída e desinteressada. Prefere cultivar e devorar romances históricos, de aventuras maravilhosas, de poesias carregadas de sentimento que caracterizam o Romantismo. E um dia resolve escrever também. Compõe narrativas históricas e alguns alguns contos, seguindo os padrões de suas leituras preferidas. Redige também o semanário escolar Arte e Progresso.

Aos quinze anos descobre o teatro. Atraem-no as peças de Shakespeare, Alexandre Dumas, pai e Victor Hugo. Decide, então, compor um drama em prosa, em cinco atos, Luiz XI. Pouco tempo mais tarde, no inverno de 1837, aos dezesseis anos, descontente com a aventura teatral, redige seu primeiro romance, Paixão e Virtude. Nessa obra imatura e juvenil vislumbram-se os germes de suas grandes criações: a heroína, Mazza, contém os traços que reaparecerão em Ema Bovary. A minúncia com que descreve a paisagem e o ambiente, o esforço para encontrar, em seu vocabulário de adolescente, a palavra exata, a preocupação de harmonizar temperamento e ação, enfim, todas as características do futuro Flaubert já se anuciam timidamente nessa primeira narrativa literária.

É nessa época que descobre o amor. Amor de adolescente por uma mulher casada, onze anos mais velha: Elisa Schlesinger. Tanto ela quanto o marido gostam muito de Flaubert. Levam-no a passeios de barco, convidam-no para jantar e se preocupam com seus problemas. Gustave nunca falou à amada de amor, nunca esboçou um gesto de carinho: adora Elisa em silêncio. Ela respeita-lhe os sentimentos. Trinta anos mais tarde, numa carta apaixonada, Flaubert finalmente declarou que a amava. Embora viúva, não quis esposá-lo. O amor impossível e constante inspirou-lhe quatro livros: Memórias de um Louco (1838), Novembro (1842) e as duas versões de A Educação Sentimental. Na primeira versão, escrita em 1845, ainda sob o impacto de sua experiência amorosa, o jovem Flaubert confere um desenlace feliz a sua paixão, acreditando ainda que, para conquistar a felicidade, bastaria desejá-la com toda a força. Anos mais tarde, ao redigir a segunda versão da obra (1869), reconhece o engano de sua mocidade. Inicia o livro com uma saudosa evocação de Elisa Schlesinger (a sra. Arnoux do romance) e termina com a melancólica despedida de Frédéric Moreau (nome que atribui a sí próprio no enredo).

Embora infeliz no amor e ávido de escrever, Flaubert compreende a necessidade de cumprir os desejos paternos: diplomar-se advogado. Vai para Paris em 1840, ao dezenove anos, estudar. Sem entender nada das aulas nem dos copêndios, cursa a faculdade. Deixa crescer a barba, fuma cachimbo sem parar, vai ao teatro sempre, freqüenta bons restaurantes, gasta despreocupadamente todo o dinheiro que o pai lhe manda.

A reprovação nos exames, no entanto, abalm Flaubert, e o faz ter o primeiro ataque nervoso. E é esse ataque que faz com que os pais desistam de insistir para que ele conclua os estudos. Flaubert, então, abandona o curso e vai morar com a família na vila de Croisset, à margem do Sena. Ali passa o resto da vida, e insiste, no espaço de três meses, à morte do pai e da irmã Caroline, falecida em 1846, aos 22 anos, após dar a luz uma menina.

Os anos passam. Em 1846 Gustave Flaubert conhece a flamejante Louise Collet. Separada do marido, mãe de um adolescente, amante do filósofo Vítor Cousin, sucumbe de imediato à atração pelo escritor e com ele vive uma tempestuosa aventura.

A grande paixão de Flaubert, no entanto, continua sendo a literatura. Considera mais emocionante encontrar uma bela frase que amar uma bela mulher. Ao observar um fato interessante, ao experimentar novas emoções fixa-as imediatamente num livro de notas, para usá-las mais tarde. Tal aspecto mostra o pendor de Flaubert para a escola literária realista, fato que o salva de cair nos exageros sentimentais característicos de alguns românticos decadentes.

Não é o caso de Flaubert. Sob forma precisa e realista, revela um tédio em muito semelhante ao "mal do século" que, tendo sido desencadeado por Goethe, atingiria Chateaubriand, Alfred de Vigny, entre outros. Domonstra ainda forte amor à natureza, lírico sentimento da paisagem, fantasias idílicas. Transfere para sí os dramas vividos por seus protagonistas. Ao concluir Madame Bovary, declara: "Quando escrevi a cena de envenenamento senti na boca o gosto do arsênico, senti-me envenenado. Tanto que tive duas indigestões seguidas, duas indigestões reais...".

Flutuando entre um programa realista e o temperamento romântico, Flaubert acaba tão mergulhado na atividade literária que não cuida mais de Louise nem percebe as transformações políticas da França. Em 1848 rompe com a amante. O rei Luís Filipe entrega o poder a Napoleão Bonaparte. Flaubert aceita o fim da aventura amorosa sem sofrimentos e observa impertubável os sangrentos episódios políticos. Quando muito se aborrece com a violência que testemunha. Não se envolve. Apenas registra alguns fatos que mais tarde relatará em suas obras. O que consegue sacudi-lo profundamente nada tem a ver com a revolução ou com Louise Collet: a morte do amigo Le Poittevin. O próprio Flaubert fecha-lhe os olhos. É uma imensa dor, que abala sua saúde. Seguindo conselho médico, parte em viagem para o Oriente em outubro d 1849, onde pretende ficar por dois anos. Mas meses depois está de volta.

Antes de viajar, começara a redação de As Tentações de Santo Antônio, obra inspirada num quadro do pintor flamengo Bruegel. Mas o amigo Du Camp não aprova a peça. Decepcionado, pois esperava uma reação mais entusiasmada, abandona a obra, para retomá-la apenas em 1869.

Aos trinta anos, o romancista pouco tem da beleza da juventude. A doença, o afã de escrever, a viagem ao Oriente e o desencanto amoroso aniquilaram-lhe a beleza. O rosto agora está sulcado de veias vermelhas. A boca oculta-se atrás de grossos bigodes. Os cabelos rareiam. Mesmo assim, Louise Collet ainda o procura. Entra, um dia, abruptamente, em sua casa de Croisset em busca do antigo calor e do casamento. Flaubert, irritado e impaciente, expulsa-a sem rodeios. Logo após, no entanto, reata com ela uma longa correspondência. Nela, muitos de seus planos e idéias ficam registrados para sempre.

Em junho de 1851, após longo período de inatividade, Flaubert inicia a composição da mais famosa de suas obras: Madame Bovary, que o tornará em pouco tempo um dos mais célebres romancistas da França. São cinco anos de trabalho, e finalmente Madame Bovary começa a ser publicada na Revue de Paris a partir de outubro de 1856, porém com cortes das cenas mais picantes. Alguns meses mais tarde, ainda que sem as cenas que certamente provocariam a cólera das autoridades, a censura decide suspender a publicação de Madame Bovary e processar o autor. A justificativa oficial é a "imoralidade" da obra. A verdade, porém, é que o romance ataca a moral burguesa, posta a nu em sua fragilidade, convencionalismo e falsidade, através da caracterização da vida monótona e sem atrativos da província.

Flaubert tanta abafar o processo, recorrendo a amigos influentes. Em vão! Em janeiro de 1857, aos 36 anos, senta-se no banco dos réus. Oito dias depois, porém, é absolvido, e o livro, editado na íntegra, esgota-se em pouco tempo.

Muitos querem saber em quem Flaubert se inspirou para compor Ema Bovary. Diante da insistência de todos, declara: "Madame Bovary sou eu". A frase, encarada como gracejo na época, encerra muita verdade. Como Ema, Flaubert procurava fugir à mesquinhez cotidiana e sonhava com amores irreais, ansiando por uma existência mais plena.
Com o passar dos dias a fama acaba por cansar Flaubert. E ele volta a Croisset em 1857 para trabalhar em Os Mercenários. Concluída a obra Salammbô, que não é sucesso nem de crítica nem de público. Como que para esquecer o fracasso de Salammbô, reescreve A Educação Sentimental.
Corre o ano de 1870. A França sofre a invasão prussiana. Eclode a guerra entre França e a Alemanha. A queda da pátria representa, para Flaubert, apesar do seu indiferentismo político, "a chegada do fim do mundo". O escritor volta a padecer dos ataques epilépticos da juventude. O pai já não está presente para tratá-lo com sangrias e dietas. O amigo Bouilhet morrera, assim como a mãe de gustave. ELisa Schlesing, viúva, encontra-se recolhida a um asilo de loucos. Flaubert só tem a companhia da sobrinha, e, em visitas breves, a do romancista Émile Zola, do jovem contista Guy de Maupassant e do escritor russo Ivan Turgueniev.
A vida, que para ele nunca tivera atrativos, é agora um tédio infinito. A única distração ainda é escrever. Aos 55 anos, Flaubert elabora um conto que é uma obra-prima: Um Coração Simples. A morte de Louise Collet o deixa mais só. Começa a escrever Bouvard et Pécuchet, mas não consegue concluí-lo. Padece de terríveis sofrimentos físicos. A mão não tem mais firmeza. A palavra certa não lhe ocorre mais. Finalmente, um ataque de apoplexia dá-lhe o golpe mortal. O tédio dissolve-se, a vida pára. Num dia de primavera de 1880, o romântico mestre do realismo francês resolve suas inquietações. Mas não lhe havia sobrado tempo necessário para cumprir a promessa que fizera a um amigo: "Um dia, antes de morrer, resumirei minha vida, tentarei contar-me a mim mesmo".

sábado, 12 de abril de 2008

Stendhal


1783 - Nasce em Grenoble, em 23 de janeiro, Henri Beyle, filho de Chérubin-Joseph Beyle e Caroline-Adelaide-Henriette Gagnon.

1790 - Morte da mãe.

1796 - Ingressa na escola de Grenoble.

1799 - Vai a Paris.

1800 - Viaja para a Itália como subtenente do 6° Regimento dos Dragões.

1802 - Deixa o Exército. Volta a Paris.

1803 - Adere aos "Ideólogos".

1804 - Liga-se à atriz Mélanie Guilbert. Estabelece-se como comerciante na cidade de Marselha.

1806 - Volta a Paris e ingressa novamente no Exército.

1809 - Viaja a Viana.

1811 - Viaja a Itália.

1814 -Publica Vidas de Haydn, Mozart e Metastásio.

1817 - Publica História da Pintura na Itália e Roma, Nápoles e Florença.

1821 - Regressa a Paris.

1822 - Publica Do Amor, com o pseudônimo Stendhal.

1823 - Publica Racine e Shakespeare.

1827 - Publica Armance.

1830 - Publica Passeios em Roma.

1831 - Transferido como cônsul para Civitavecchia

1833 - Conclui Lembranças de Egotismo, publicado postumamente.

1835 - Redige Vida de Henri brulard.

1836 - Viaja a Paris.

1838 - Escreve Memórias de um Turista e A Cartuxa de Parma.

1842 - Em 22 de março tem um ataque apoplético, em Paris. Dia 23, às 2 horas da madrugada, morre.

A neve cai em grossos flocos sobre Grenoble. Cobre de branco os telhados escuros e as ruas estreitas. Afugenta os transeuntes, interdita os passeios. No ardor da despedida, o pequeno grupo junto à diligência nem chega a sentir o frio. Henri Beyle está de partida para Paris: aspira conquistar o amor e a glória. Por certo, na capital sentirá falta das montanhas ao redor de Grenoble, e lamentará não ter a irmã, Pauline, o avô e o tio Romain a seu lado. Porém, em compensação não castigará os olhos com os feios traços da cidade natal. Olha para a irmã caçula, que espera indiferente pelo fim das despedidas. Perto dela, o Abade Raillane parece fitar Henri em reprovação. Entende essa viagem a Paris como uma fuga para a aventura. Teme que, sem religião nem disciplina moral, o jovem Beyle se perca. Só falta dizer adeus ao pai, que, emocionado, retém na sua a mão do filho, sem dizer uma só palavra. Havia muito tempo Chérubin-Joseph Beyle perdera o hábito das confidências. As mágoas, as dificuldades e a morte precoce da esposa, em 1790, quando, Henri tem apenas sete anos, o haviam endurecido ao longo da vida.

Soltando a mão do pai, contempla as casas escuras e ruas estreitas, adivinhando as motanhas que a nevada encobre. Murmura um "adeus, Grenoble" e sobe na diligências, junto com o avô.

Com o velho doutor Gagnon aprende a admirar a beleza e a arte, e dele recebe tanto carinho como só sua mãe lhe havia dado. No canto da diligência, Henri Beyle se comove, pensando que em breve terá de despedir-se do avô. E, furtivamente, com o punho do casaco enxuga uma lágrima indiscreta. O avô percebe-lhe o gesto, e, para distraí-lo, fala sobre os exames vestibulares e sobre o triunfo certo de seu exame na Escola Politécnica.

Mas no dia da prova, ainda cansado da viagem, Henri acorda tarde demais. Nem Avô nem neto lamentam o fato; afinal, estudar engenharia fora apenas um pretexto para sair de Grenoble. O doutor Gagnon deixa o neto aos cuidados de um primo e parte. Por intermédio de Pierre Daru, homem de prestígio no governo de Napoleão, engaja-se no Exército e, em 1800, parte para a Itália. Encanta-se com a beleza da paisagem e das mulheres. Apaixona-se pela literatura e pela música, em particular pela ópera O Matrimônio Secreto, de Domenico Cimarosa.

Aborrecido com o Exército, em 1802 desliga-se das armas, diz adeus a Angela Paietragrua, sua amada milanesa, e volta a Paris. Apesar dos recursos, Henri decide tornar-se um cavalheiro perfeito e põe-se a tomar lições de dança. Para ler Shakespeare no original, dedica-se ao estudo do inglês. Para conhecer as idéias da moda, freqüenta os salões de Destutt de Tracy e lê as obras de Condillac. Mas estudos e exercícios não o fazem deixar de ser conquistador.

Corre o ano de 1804. Sua paixão pela atriz Mélanie Guilbert o faz seguir-lhe os passos: muda-se com ela para Marselha e, para sobreviver, estabelece-se como comerciante. Tanto a temporada como a empresa comercial redundam em grande fracasso, e os amantes têm de se separar. Henri Beyle regressa a Paris, falido. O primo o readmite no exército e confia-lhe uma intendência na Áustria, onde fica por dois anos. Em 1810, aos 27 anos, volta a Paris, para logo em seguida partir em viagem para a Itália, a Rússia e a Alemanha. Outra vez de volta a Paris, presencia a tomada da capital pelas forças aliadas e a fuga de Napoleão, em 1814. Nada mais lhe resta a fazer na França: ruma então para Milão, decidido a dedicar-se exclusivamente à literatura.

Data desses anos de derrocadas a publicação de Vidas de Haydn, Mozart e Metastásio, seu primeiro trabalho, como pseudônimo de Bombet. Sua estréia literária provoca um grande escândalo. Giuseppe Carpani, escritor italiano, acusa-o de haver plagiado sua biografia de Haydn. Imediatamente, um certo Bombet Júnior, que se declara irmão mais novo do Bombet plagiador(e que na verdade era o mesmo Henri Beyle), acorre para defendê-lo. Pela imprensa consegue distorcer de tal modo os fatos que Carpani, verdadeiro autor da obra, acaba aparecendo aos olhos do público não só como mentiroso mas também como ladrão. O debate desperta a curiosidade dos leitores, e o livro revela-se um grande sucesso.

Três anos depois publica História da pintura na Itália - Mais um plágio - e Roma, Nápoles e Florença, evocação de suas lembranças de viagem. Porém as críticas e suas amizades com os liberias italianos despertam nos austríacos - que dominam boa parte do norte da Itália - a suspeita de que Beyle trama contra eles. Temendo ser preso, 1821 volta a Paris. Está com 38 anos e deixa atrás de sí mas um amor atormentado: Métilde Dembowski, "a maior de todas as dores que já sofrera".

A influência dos "ideólogos" revela-se claramente no tratado Do Amor, publicado em 1822 e primeira obra assinada como pseudônimo Stendhal. Apesar da leveza do estilo, o ensaio não obtém sucesso. Os anos seguintes vêem aparecer a Vida de Rossini(1823), um dos raros sucessos de Stendhal, e Racine e Shakespeare(1825), este considerado uma de suas obras mais importantes.

Fazendo jus à fama de conquistador, em 1824 liga-se a Clementine Curial, casada com um general de Napoleão. Durante dois anos vivem intensa paixão e as mágoas de sucessivas traições. Em setembro de 1826 o caso está terminado. Stendhal passa por uma crise terrível, que o coloca "à beira do suicídio".

A desilusão transparece em seu primeiro romance, publicado em 1827 aos 44 anos: Armance narra uma história de amor impossível, na qual o herói vai buscar a morte na bela paisagem da Grécia, e a heroína entra para o convento. Stendhal não opta por nenhum desses caminhos para esquecer seu triste caso com Clementine. Lança-se, isso sim, nos braços de Alberte de Rubempré. Mas ao regressar de uma viagem à Espanha encontra-a nos braços de um amigo seu e desfaz a ligação. Vai procurar consolo nos encantos da italiana Giulia Rinieri de 'Rochi. De Alberte e de Giulia Stendhal tira vários traços para compor a personagem Matilde de La Mole, figura destacada de O Vermelho e o Negro.

O significado do título suscita muita discussão. Segundo alguns críticos, Stendhal quer representar o jogo da roleta. Outros vêem no vermelho o exército, o sangue das batalhas, e o negro a igreja, o preto das batinas. Há também os que consideram o negro uma alusão ao estado de seminarista do herói, e o vermelho o sangue que o embebe no cadafalso. A publicação de O Vermelho e o negro em 1830 coincide com a revolução de julho, que coloca no poder Luís Filipe. O novo rei envia Stendhal para Trieste, como cônsul. Porém a Áustria, que domina essa cidade na ocasião, recusa-se a aceitá-lo, temendo idéias liberais. Após cinco meses de espera, o escritor recebe ordens para assumir o consulado em Civitavecchia, próximo a Roma. O Vaticano não o vê com bons olhos, prova disso é que colocara Roma, Nápoles e Florença na lista dos livros proibidos.
Para evitar novos problemas, Stendhal decide não publicar nada enquanto estiver no exercício das funções oficiais; mas contiua a escrever. Em 1832 coclui Lembranças de Egotismo, uma reconstituição de suas peripécias em Paris. No ano seguinte inicia a composição de Lucien Leuwen, que nunca mais retomaria, e começa a elaborar A vida de Henri Brulard, minunciosa autobiografia que alguns críticos julgam a ser sua obra-prima. Escondendo-se sob outro nome, Stendhal procura uma definição de si mesmo, após uma revisão o mais objetiva possível de seus atos e impulsos.
Em 1839 publica A Cartuxa de Parma, seu último romance, em que descreve o luminoso panorama italiano que tantas vezes palmilhara deslumbrado. A Itália figura como personagem central nas Crôicas Italianas, escritas em Roma, cidade que Stendhal amara sem o entusiasmo juvenil que o prendera a Milão mas com uma terna melancolia.
Encontra ali o ambiente perfeito para esperar com serenidade a velhice e a morte e tentar reconstituir os fatos de sua vida. As Crônicas não focalizam nem as artes nem a beleza da paisagem, mas o elemento humano, disposto nas diferentes camada sociais que Stendhal analisa.
Ao elaborar essas últimas obras Stendhal sente-se só e desamparado. Não conta mais com o forte primo Daru. As mulheres se afastam, seus livros não alcançam mais grande sucesso. Stendhal não havia escrito para o grande público; como dizia, sua literatura se dirigia para os séculos seguintes: "posso fazer uma obra que não agrade a ninguém e que será reconhecida como bela no ano de 2000". Um dos poucos a compreendê-lo em seu própria tempo é Balzac, cujo artigo elogioso sobre A Cartuxa de Parma constitui uma das últimas alegrias de Stendhal.
O coração enfraquecido não lhe dá mais muito tempo de vida. Em 15 de março de 1841 sofre un primeiro ataque. Apressado, deixa Civitavecchia e retorna à França: quer morrer em sua pátria. É mês de outubro. É outono em Paris. Cinco meses mais tarde, em 22 de março de 1842, anda pela rua Neuve des Capucines quando cai sob um fulminante ataque de apoplexia.
Transportado para o hotel, falece na madrugada do dia seguinte. O amigo Romain Colomb providencia os serviços fúnebres, realizados na igreja de Assunção. Com mais duas pessoas apenas, acompanha o féretro até o cemitério de Montmartre. Ali repousa o homen ambicioso e ávido de amor, o escritor orgulhoso que escrevera para gerações futuras. Em vida, não conhece a glória. Após a morte, consagra-se como um dos maiores autores do século dezenove.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Edmond Rostand


1868 - Nasce em Marselha, em 1° de abril, Edmond Rostand.

1880-1890 - Nesse período completa os estudos em Paris e forma-se em direito. Escreve os primeiros poemas.

1888 - Escreve sua primeira peça, A Luva Vermelha.

1890 - Publica seu primeiro livro de poesias, Divagações.

1891 - Nasce seu primeiro filho, Maurice.

1893 - Escreve Os Dois Pierrôs.

1894 - Nasce o segundo filho, Jean. Escreve Os Românticos.

1895 - Escreve A Princesa Longínqua.

1897 - Escreve A Samaritana.

1900 - Escreve O Filhote de Águia.

1901 - É eleito membro da Academia Francesa.

1910 - Escreve Chantecler.

1914 - Rejeitado pelo Exército francês, retira-se para o campo.

1918 - Em 2 de dezembro, aos cinqüenta anos, Rostand morre de pneumonia.

1921 - É publicada, postumamente, A Última Noite de Dom João.

A França da segunda metade do século XIX vive o Segundo Império, sob o governo de Luís Napoleão, que restabelece em seu benefício o título imperial hereditário e adota o nome de Napoleão II. Desenvolve-se o mercado financeiro, e a influência da França se faz sentir no exterior. O país está entrando na civilização industrial da idade da máquina. Na política internacional, a França vive um período de instabilidade. Um clima de pré-conflito ronda a região, abatendo-se sobre a Prússia, a Alemanha e a própria França, países que estão empenhados em ampliar suas fronteiras. A guerra Franco-prussiana começa a se desenhar.

É nesse período, em 1868, que nasce em Marselha Edmond Rostand, de uma família provençal culta e rica. Seu pai, Eugène Rostand, é economista, tradutor e poeta, membro da academia de Marselha. Na literatura, os ideais românticos da arte aos poucos vão cedendo lugar ao princípio realista de que é necessário mostrar a vida como ela é, insistindo mais na denúncia de seu lado mau do que na exaltação de seu lado bom. O naturalismo - que procura incorporar ao gênero o estudo do comportamento patológico e das classes socialmente desfavorecidas - está em voga, banindo da literatura a antiga tradição de tratar de episódios medievais, louvar o patriotismo e exaltar a fé cristã.

Rostand é uma criança solitária e silenciosa, obcecada por literartura, em particular pelo teatro. Em 1880, aos doze anos, segue para Paris a fim de complementar os estudos. Nessa época escreve seus primeiros poemas. Dedica-se a literatura, história e filosofia e, muito jovem, forma-se em direito na Universidade de Paris, mas nunca exerceria a profissão. Desde os primeiros meses na faculdade já freqüentava assidualmente os meios intelectuais e artísticos, decidido a brilhar no mundo das letras, que sobre ele exerce um irresistível fascínio. Nas rodas literárias, além de um grande estímulo para seguir a vocação, Rostand conhece a mulher com quem viria a se casar. Aos vinte anos, em 1888, escreve sua primeira peça, A Lua Vermelha, que obtém algum sucesso, e em 1890 lança um livro de poemas, Divagações. Nesse mesmo ano casa-se com a poetisa Rosemonde Etiennette Gérard, premiada pela Academia Francesa por seu livro de veros, As Flautas. No ano seguinte nasecu seu primeiro filho, Maurice.

Em 1893 tenta novamente conquistar o público com a peça teatral Os Dois Pierrôs. Sem conseguir o mesmo êxito de A Lua Vermelha, só lhe resta esperar até o ano seguinte pra realizar seu sonho. Em 1894 nasce Jean, seu segundo filho. Nesse mesmo ano Edmond Rostand faz as pazes com o sucesso, quando Os Românticos, peça baseada em Romeu e Julieta, de Shakespeare, é encenada pela Comédie Française. Finalmente está aberto o caminho da fama para Rostand.

Embora os ideais românticos já estejam ultrapassados, Edmond Ronstand inspira-se nos temas do Romantismo para escrever suas peças, sem deixar de lado o novo enquadramento psicológico da época. Essa habilidade, aliada a um genuíno talento poético e inteligente manejo dos vocábulos, garante o êxito de sua carreira de dramaturgo. Em 1895 escreve A Princesa Longínqua, história de amor entre um trovador e uma princesa da Idade Média.

Em 1897, aos 29 anos, escreve A Samaritana, peça de cunho religioso, tema de forte inspiração para os românticos. Os críticos não aprovam a peça, pois entendem que Jesus é apresentado de um modo vulgar. Mas a obra que imortalizaria Edmond Rostand como dramaturgo e ídolo do público francês, ainda em 1897, seria a história do herói romântico que se tornaria um verdadeiro símbolo popular: Cyrano de Bergerac.

A obra é baseada na história real de um soldado que se destacara não tanto pelo bravura, pela habilidade de espadachim ou pelo talento de escritor, mas sim pela agudeza de espírito, por sua língua ferina e também por seu nariz extraordinariamente grande. Hercule Savinien de Cyrano de Bergerac viveu na França no início do século XVII. A inspiração para escrever a respeito da vida de Cyrano surge quando Rostand passa férias de verão na pequena cidade de Luchon. O escritor fica conhecendo um jovem que lhe fala de seu amor não correspondido e que lhe pede conselhos para conquistar a amada indiferente, uma vez que não possui o dom da retórica. Rostand passa a ensinar diariamente ao rapaz os rudimentos da arte de dizer reflexões frases espirituosas, citações eruditas. Quando a moça finalmente se declara apaixonada e confessa ao próprio Rostand sua surpresa em saber que o rapaz é tão sábio, romântico e galanteador, o escritor imediatamente relaciona a situação com a infeliz história sentimental de Cyrano de Bergerac, que, incapaz de conquistar para sí próprio o afeto de Roxana, a mulher amada, conquista-o utilizando palavras apaixonadas em nome de outro, seu jovem amigo Cristiano.

Assim brota na mente de Rostand o embrião da peça que o tornaria célebre. Enquanto elabora mentalmente o esboço da obra, começa a procurar o intérprete ideal para o papel, que exige não só um ator talentoso mas também dotado de certas características físicas. Quando Sarah Bernhardt, considerada a maior atriz da época e que já interpretara no palco personagens de Rostand em duas peças, lhe apresenta Constant Coquelin, ator de sua companhia de teatro, o entusiasmo é recíproco. Autor e ator entendem-se de imediato, e Rostand lança-se ao trabalho com redobrado vigor.

A obra, seguindo a tradição romântica, é escrita em versos. Rostand trabalha febrilmente, e chega a compor em uma só tarde 250 versos. A estréia, entretanto, em 27 de dezembro de 1897, no Théâtre de La Porte Saint-Martin, em Paris, é marcada por uma atmosfera de inquietação e nervosismo por parte dos atores. O clima é de pessimismo, e o público, hostil e apreensivo, aposta no fracasso: a época das peças escritas em versos já passara, e a história amorosa do galante mosqueteiro não parece um tema dos mais empolgantes. Mas os personagens crescem e dominam os intérpretes, isolando-os do público, despojando-os de sua própria pessoa, integrando-os num mundo maior, onde a ficção magicamente supera e enrique a realidade. Constant Coquelin como que incorpora a alma do personagem, de tal forma que, durante muitos anos, o papel nos palcos franceses seria exclusivamente seu. É impossível imaginar outro intérprete para Cyrano de Bergerac. Coquelin tem 56 anos quando o interpreta pela primeira vez. O herói, na realidade, deveria ter vinte anos menos; todavia, essa diferença de idade acaba alterando a própria criação de Rostand.

A condição do homem de meia-idade, apaixonado por uma mulher muito mais jovem, assume uma conotação paternal. A grandiosidade da obra acaba preponderando sobre o pessimismo e a tensão. A nobreza de sentimentos do personagem, sua coragem, ousadia e sensibilidade encarnam o próprio ideal do povo francês, e a peça revela-se um estrondosso sucesso. O público, em pé, aplaude e exige a presença do autor: graças a ele Cyrano está imortalizado como uma figura quase lendária. Dez dias depois da estréia, o presidente da República francesa, Félix Faure, comparece ao teatro e, no intervalo da peça, entrega pessoalmente a Coquelin a Legião de Honra, a mais alta comendada desde 1802, criada por Napoleão Bonaparte.

Para o teatro, Rostand escreve ainda, em 1900, O Filhote de Águia. De inspiração histórica - mais uma vez cumprindo o ideal romântico dde glorificar os valores pátrios -, a peça conta a epopéia do duque de Reichstadt, que deseja ressuscitar o império de seu pai Napoleão, mas não se sente com forças para tão grande empreitada. Mais uma vez, nessa obra, Sarah Bernhardt mostra sua personalidade e seu talento. Apesar da rejeição dos críticos, por ter a obra sido inspirada nos ultrapassados modelos românticos, ela é aplaudida com entusiasmo pelo público, por seu tema interessante e envolvente.

Em março de 1901, aos 33 anos, Edmond Rostand é eleito membro da Academia Francesa. Mas sua saúde, já debilitada, não lhe permite desfrutar por mais tempo a glória duramente conquistada. Enfraquecido e cansado, parte para a casa de campo da família em Cambo, na região basca, onde passa quase nove anos em silêncio. Em 1910 volta aos palcos parisienses com Chantecler, história do mundo animal baseada nas fábulas de La Fontaine. Depois dessa peça, considerada pela crítica como o epílogo infeliz de uma carreira notável por uma única obra, Rostand escreve ainda A Última Noite de Dom João, publicada postumamente, em 1921.

Em 1914 tem início a Primeira Guerra Mundial, e Rostand procura se alistar no exército francês. Recusado, em virtude de sua saúde cada vez mais fraca, Rostand retira-se definitivamente para o campo. De sensibilidade vibrante, vivíssima imaginação e inesgotável riqueza de expressão, Rostand começa a perder aos poucos suas melhores qualidades por um excesso de virtuosismo. Passa o resto da vida torturado por sonhos de glória inatingíveis.

Em 2 de dezembro de 1918, quando a França comemora a vitória na Primeira Guerra, Edmond Rostand morre em Paris, aos cinqüenta anos, em conseqüência de uma pneumonia. Sua imortal criação, Cyrano de Bergerac, contudo, continua percorrendo o mundo, empolgando platéias e fazendo a glória de muitos atores, tanto nos palcos quanto nas telas de cinema.

terça-feira, 25 de março de 2008

Fiódor Dostoiévski


1821 - Em 30 de outubro, em Moscou, nasce Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski.

1837 - Morre a mãe de Dostoiévski. Transfere-se para São Petersburgo e ingressa na Escola de Engenharia Militar.

1839 - Seu pai é assassinado.

1841 - Inicia as obras Bóris Godunov e Maria Stuart, mas não as conclui.

1843 - Passa a trabalhar na seção de Engenharia de São Petersburgo. Traduz Eugênia Grandet, de Balzac, e Dom Carlos, de Schiller.

1844 - Dostoiévski demite-se do cargo público para se dedicar à literatura.

1845 - Publica Pobre Gente.

1847 - Sai a segunda edição de Pobre Gente. Sofre uma crise de epilepsia.

1848 - Publica o romance O Duplo.

1849 - É preso e condenado à morte. Comutada a pena, parte para a Sibéria.

1854 - É incorporado como soldado raso em uma guarnição siberiana.

1857 - Casa-se com Maria Dimítrievna Issáievna.

1859 - Volta a São Petersburgo.

1861 - Publica Recordações da casa dos mortos. Funda o jornal O Tempo.

1862 - Viaja ao exterior com a jovem Polina Súslova.

1863 - Retorna a Rússia.

1864 - Funda o período A Época. Morre sua esposa e seu irmão.

1867 - Dostoiévski casa-se com Ana Grigórievna. Publica Crime e Castigo.

1868 - Nasce a primeira filha. Publica O Idiota.

1869 - Nasce a segunda filha.

1871 - Volta a São Petersburgo e publíca Os Possessos.

1874 - Publica O Adolescente e Diário de um Escritor.

1880 - Publica Os Irmãos Karamázovi.

1881 - Morre em 28 de janeiro, e é sepultado três dias depois no cemitério Alieksandr Niévski, em São Petersburgo.

Em junho de 1812 a Rússia é invadida pelas tropas napoleônicas, e elas se rende após sagrenta batalha. Após cinco semanas numa Moscou incendiada, abandonada por seus moradores, tem início a famosa retirada do Grande Exército, ordenada por Napoleão. Mas as tropas russas seguem-lhe as pegadas até a Alemanha, e nesse país travam diversas batalhas. A perseguição continua até Paris, onde, no mês de março de 1814, Alexandre I entra Triunfalmente.

De volta à Russia, jovens oficiais se impressionam com os abusos da burocracia, com a arbitrariedade do governo, com o sofrimento dos servos, com juízes corruptos, entre outros desmandos. Algumas sociedades secretas começam a se organizar para reverter a situação, e até 1820 ocorrem vários movimentos revolucionários por todo o país.

Nessa Rússia conturbada, na cidade de Moscou, nasce Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, em outubro de 1821, descendente de uma aristocrática família lituana, porém agora sem fortuna alguma.

O pequeno Dostoiévski cresce em meio à pobreza e a pessoas doentes; seu pai é médico em sanatório para doentes pobres em Moscou, e é ai que reside a família. Além das condições materiais bastante adversas, ainda lhe amarguram a vida o temperamento despótico e brutal do pai, que vive aos gritos com ele, e a passividade triste e nervosa de sua mãe, Maria Fiódorovna Nietcháieva. Martirizado, o menino alimenta a esperança de que o pai morra, o que chega a pedir a Deus em suas preces. Contudo, quem morre é sua mãe, que não resiste a tantos sofrimentos.

Viúvo, Mikhail dedica-se com mais afinco ao trabalho e resolve mandar o filho para a escola militar de engenharia, em São Petersburgo, atual Leningrado. E é ali, entre exercícios de campanha e cálculos matemáticos, que adolescente Fiódor descobre o prazer da literatura. Entrega-se febrilmente à leitura, e fica impressionado com Schiller, Dickens, George Sand e Balzac. As idéias de muitos escritores de séculos anteriores, como Byron, Shakespeare e Cervantes, e de seu comteporâneo Victor Hugo, mais tarde tarde influenciariam suas obras.

A inesperada notícia do assassinato do pai, em 1839, acaba pesando na cosciência do jovem Fiódor, que tanto rezara para ver-se livre dele. Amargurado, angustiado pelo remorso, sentindo-se responsável por toda a miséria do ser humano, ele busca se redimir por meio da criação literária. Aos vinte anos começa a escrever Bóris Godunov e Maria Stuart, que não só refletem a preoculpação de seguir a moda romântica como também sua problemática pessoal: o primeiro é a história de um tirano, como seu pai, e o segundo é o drama de uma rainha infeliz e injustiçada, como sua mãe. Fiódor não conclui nenhuma das suas obras.

Em 1843 termina os estudos e vai servir como alferes na seção de Engenharia de São Petersburgo. Nessa mesma época traduz duas obras românticas: Eugênia Grandet, de Victor Hugo, e a peça Dom Carlos, de Schiller. No ano seguinte, ainda tentando seguir os padrões do romantismo, Dostoiévski começa a elaborar Pobre Gente, novela que descreve o ambiente medíocre em que vive. Por fim, cada vez mais fascinado pela literatura, demite-se do cargo público para dedicar-se inteiramente à carreira de escritor.

Publicada em 1845, Pobre Gente transforma-se em grande sucesso de público e de crítica, o que encoraja a escrever com mais afinco. Em 1847, ano em que sai a segunda edição de Pobre Gente, sofre uma séria crise de epilepsia. No ano seguinte publica O Duplo, Romance que não obtém o mínimo sucesso literário. A fase de glória parece estar chegando ao fim, a fama começa a declinar: os críticos e autoridades literárias russas que tanto o haviam elogiado chegam a confessar de público que se enganaram e que haviam exaltado equivocadamente seu talento literário.

Tão inesperada mudança de opnião isola Dostoiévski do convívio geral. É tomado então por repentinas dúvidas a respeito da própria capacidade e de qual seria sua real vocação. Em 1848 Dostoiévski, aos 21 anos, começa a freqüentar um grupo socialista revolucionário em São Petersburgo, do qual passa a fazer parte. Mais tarde, no entanto, no livro Os Possessos, denunciaria o clima de violência e niilismo vigente entre os revolucionários, acusando-os de agir sobretudo movidos pelo tédio e de viverem inutilmente à custa dos servos.

Antes do rompimento com o grupo, porém, o escritor já se havia comprometido em favor do socialismo, em seus discursos públicos. Denunciado juntamente com os companheiros de grupo, é preso e condenado à morte por fuzilamento. Já no patíbulo, no momento em que se iria cumprir a sentença, um toque de clarim interrompe a execução. Para incredulidade e imenso alívio dos réus, o auditor imperial anuncia que Nicolau I mudara de idéia e que a pena de morte fora comutada em prisão perpétua com trabalhos forçados na Sibéria.

Para lá segue o escritor, então, na véspera do Natal de 1849. Na bagagem que leva é pouco o peso: um exemplar do evangelho - só! Mas quanto alento, força e inspiração lhe dá a leitura desse único livro. Daí a certeza renovada de que os sofrimentos são o preço necessário da redenção. Na convivência com ladrões, criminosos e prostitutas no exílio, Dostoiévski jamais põe em dúvida a bondade humana. No livro Recordações da casa dos mortos, ele registraria: "Posso testemunhar que no ambiente mais ignorante e mesquinho encontrei sinais incontestáveis de uma espiritualidade extremamente viva". Após cinco intermináveis anos de trabalhos forçados, em 1854, com 33 anos, Dostoiévski é incorporado como soldado raso em uma guarnição siberiana, onde passa outros cinco anos. Não tem amigos, nem família, tampouco dinheiro. Na fria solidão da Sibéria, sofre o suplício de apaixonar-se por uma mulher casada, Maria Dimítrievna Issáievna. Seu sofrimento aumenta quando ela se muda para outra cidade, mas depois de alguns meses, para sua alegria, ele vislumbra uma esperança: Maria fica viúva. Em menos de uma ano, passado o períod de luto, eles se casam, em 1857.

O casamento, porém, não tem um bom começo. Na noite de núpcias Dostoiévski sofre uma violenta crise de epilepsia, como já tivera anos antes. A mulher apenas o observa, com o espanto estampado nos olhos. Não há consolo na Sibéria: a desolação da paisagem o deprime, sua saúde é péssima, o casamento revela-se um fracasso. Tudo que lhe resta é escrever um novo romance, Recordações da Casa dos Mortos, e esperar que o Czar lhe dê permissão para voltar a São Petersburgo.

Nicolau I já está morto, e seu sucessor, alexandre II, atende-lhe o pedido. Em novembro de 1859 o escritor volta à cidade que tão bem retrataria em seus contos e romances. O Retorno, porém, é melancólico e solitário: os amigos já o esqueceram, o público também. Com o irmão Mikhail, funda um período, O Tempo, em 1861. A publicação de de Recordações da Casa dos Mortos, nesse mesmo ano, ajuda-o a fazer ressurgir seu nome, mas a fama não é suficiente para livrá-lo das graves dificuldades financeiras. Tudo o que ganha, Dostoiévski gasta com o jornal e com a mulher doente, contrai empréstimos que não consegue pagar, e por fim, ao ver-se ameaçado por credores, foge para o exterior, em 1862. Deixa a mulher em São Petersburgo e, com recursos obtidos na Caixa de Socorros a Escritores Necessitados, percorre a Alemanha, Itália, Suíça, França e Inglaterra, levando consigo uma jovem estudante, partidária do feminismo, entusiasta da literatura e candidata a romancista: Polina Súslova, que posteriormente seria a musa inspiradora das personagens de O Jogador, O Idiota e Os Irmãos Karamázovi, entre outros.

De volta a Petersburgo, em 1863, Dostoiévski encontra Maria agonizante e o jornal fechado por ordem do governo. No ano seguinte, encontra ânimo e funda então outro periódico, A Época. Ainda em 1864, num período de três meses, morrem Maria e Mikhail, ficando a seu encargo a sobrevivência da cunhada viúva e dos sobrinhos. É em meio a esse sentimento de angústia que Dostoiévski inicia a redação de Memórias do Subterrâneo, obra que marca o completo amadurecimento literário do escritor. A partir desse livro ele superaria os modismos românticos que marcaram as obras anteriores, passando a interessar-se pela sondagem dos mistérios da existência e da complexidade da alma humana, pelo refortalecimento das qualidades essenciais do povo russo e pela busca do homem bom.

Entretanto, embora tenha encontrado o caminho para se realizar como escritor, Dostoiévski é um homem solitário e infeliz. Polina, que ele deixara em Paris, recusa seu pedido de casamento, e ele se afunda mais e mais em dívidas de jogo. Quando seu editor exige que ele cumpra o prazo para a conclusão do manuscrito de Crime e Castigo, ele contrata a estenógrafa Ana Grigórievna para ajudá-lo, e finalmente encontra na jovem de 21 anos a companheira que procurara por toda sua vida. Casa-se com ela em 1867, aos 46 anos. A paixão pelo jogo, porém, só faz aumentar-lhe as dívidas. Os credores voltam com as ameaças de cadeia, e Dostoiévski emigra com Ana para a Europa Ocidental. Um adiantamento do editor permite-lhe fixa-se em Genebra. Mas o vício o persegue, tudo empenha - da aliança ao capote - e tudo perde.

A morte da primeira filha em 1868, com três meses de idade, ameaça comprometer sua sanidade mental, o que é agravado pelo sentimento de culpa por privar a amada esposa do conforto e dos bens materiais. Sem filha, sem paz, o casal abandona Genebra e a literatura. Vagueia pela Itália, atormentado pela solidão curtindo a saudade da pátria distante e da filha morta. Amigos compadecidos e o editor mandam-lhe da Rússia uma ajuda fianceira, que mais uma vez, esvai-se nos cassinos. A Dostoiévski não resta escolha se não voltar a escrever, e o faz sem cessar, procurando ganhar o mínimo possível para o sustento doméstico. O nascimento da segunda filha, em 1869, vem atenuar um pouco a rudeza da vida. Com ânimo renovado, o casal retorna à Rússia em 1871, ano em que publica Os Possessos.
Dois anos depois Dostoiévski assume o cargo de redator-chefe em O Cidadão. E é a partir dessa época que escreve algumas de suas obras-primas. Em 1874 publica O Adolescente e Diário de um Escritor, e em 1880 Os Irmãos Karamázovi. Torna-se ídolo de seus leitores, guia espiritual, exemplo de força e coragem, o "Escritor da Rússia", que, ao retratar a alma de seu povo, evidenciara a própria condição humana. As aspirações de Dostoiévski estão, enfim, realizadas. Não só o escritor alcança seus intentos: o homem encontra o amor sofridamente uscado, a alegria de ter os filhos que quis e a paz que tanto almejara.
Mas já não há tempo para ser feliz. Num dia nevado de 1881, vítima de uma homorragia, morre aos sessenta anos Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, consagrado até hoje como um dos mestres da literatura universal.